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Mastite na vaca leiteira: clínica, subclínica, quanto custa e como prevenir

Tiago Frias Pinheiro — médico veterinário ·

A resposta curta: para cada vaca com grumo no leite, há várias com mastite que ninguém vê. A subclínica pega perto de metade das vacas nos rebanhos brasileiros e é ela que mais custa, porque tira leite todo dia. A prevenção começa na ordenha, e o tratamento começa por saber qual bactéria está ali.

Clínica e subclínica

A subclínica é a regra, não a exceção. Num banco de dados de 1.809 rebanhos brasileiros analisados pela Clínica do Leite da Esalq, a prevalência média foi de 46,4% das vacas30582-9/fulltext) (Busanello e colegas, 2017).

A clínica, quando aparece, costuma ser leve. Em 20 rebanhos do Sudeste, 60% dos casos foram leves, 34% moderados e 6% graves (Tomazi e colegas, 2018). Essa proporção muda a decisão de tratar, como se vê mais abaixo.

Quanto custa

O prejuízo quase nunca está onde o produtor olha. O remédio é a parte pequena da conta.

Um estudo americano mais recente mostra o mesmo padrão. Um caso clínico no começo da lactação custou US$ 444, e 71% disso foi custo indireto: vaca descartada antes da hora e leite que ela deixou de produzir (Rollin e colegas, 2015, Estados Unidos).

De onde vem a bactéria

Mais de 140 espécies causam mastite, mas elas se dividem em dois grupos, e a prevenção muda conforme o grupo:

ContagiosasAmbientais
ExemplosStaphylococcus aureus, Streptococcus agalactiaeE. coli, Klebsiella, Streptococcus uberis
Onde vivemNo úbere infectadoNa cama, no esterco, no barro
Como passamDe vaca para vaca, na ordenha: mão, teteira, panoEntram pelo teto entre uma ordenha e outra
Tipo de mastiteSubclínica longa, CCS altaClínica curta
O que funcionaPós-dipping, linha de ordenha, tratar na secagem, descartar crônicaCama seca e limpa, pré-dipping, vacina

Arraste a tabela para o lado para ver todas as colunas.

No Brasil, os dois grupos convivem. Nos 20 rebanhos do Sudeste, as bactérias mais achadas nos casos clínicos foram E. coli, Strep. uberis e Strep. agalactiae, nessa ordem. As ambientais foram as mais comuns, mas os autores alertam que as contagiosas continuam sendo um problema nos rebanhos brasileiros.

Tratar: nem todo caso precisa de antibiótico

Essa é a mudança de maior impacto dos últimos anos, e começa com um dado incômodo: em 20% a 40% dos casos clínicos, a cultura do leite não acha bactéria nenhuma. Quando não cresce nada, a vaca geralmente já está curando sozinha, e o antibiótico só adiciona dias de leite no lixo.

Daí a cultura na fazenda, feita com placa pronta, que dá resposta em cerca de 24 horas:

O efeito foi medido. Num ensaio em 8 fazendas dos Estados Unidos e do Canadá, a cultura cortou pela metade o uso de antibiótico no úbere, sem piorar a cura, a volta da mastite, a produção ou o descarte das vacas (Lago e colegas, 2011). Em duas fazendas de Goiás, os tratamentos caíram 34% e 52%.

E a bactéria decide quanto o tratamento funciona. Na lactação, segundo a Universidade da Geórgia, a cura com antibiótico é de 90 a 95% para Strep. agalactiae, mas só de 20 a 30% para Staph. aureus e de 0 a 10% para coliformes.

Toda vez que houver antibiótico, o leite fica fora do tanque pelo prazo da bula, ou pelo que o veterinário definir no uso fora da bula. É proibido mandar para o laticínio leite de vaca em carência (IN 77/2018, art. 5º). Como contar esses dias está no artigo sobre carência do leite.

Prevenir: o que tem efeito medido

A base é o plano do National Mastitis Council, entidade americana de referência em mastite. As medidas abaixo são as que têm número publicado:

Mastite também atrasa a prenhez

Num estudo americano (Santos e colegas, 2004), as vacas com mastite clínica entre a inseminação e o diagnóstico de gestação tiveram 10% de concepção, contra 29% das vacas sem mastite. Elas também ficaram quase 50 dias a mais vazias. Na conta dos dias em aberto, a mastite aparece como vaca que não emprenha.

Qual é a meta

No rebanho da Embrapa, com cerca de 230 vacas em lactação, a média foi de 17 casos clínicos por mês. Em só 2 dos 26 meses a mastite clínica passou de 1% das vacas. A meta é possível.

O que anotar

Com isso, depois de alguns meses, dá para ver se o problema é de vaca para vaca (as mesmas vacas voltando, CCS alta) ou do ambiente (casos novos e agudos, vacas diferentes a cada vez). E cada um tem uma solução diferente.


Este texto é informativo e não substitui a orientação do médico veterinário responsável pela sua propriedade. Tratamento, escolha de antibiótico e carência são prescrição veterinária.

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