Mastite na vaca leiteira: clínica, subclínica, quanto custa e como prevenir
A resposta curta: para cada vaca com grumo no leite, há várias com mastite que ninguém vê. A subclínica pega perto de metade das vacas nos rebanhos brasileiros e é ela que mais custa, porque tira leite todo dia. A prevenção começa na ordenha, e o tratamento começa por saber qual bactéria está ali.
Clínica e subclínica
- Mastite clínica é a que se vê: grumo, pus, sangue ou leite aguado no teste da caneca, às vezes com o quarto inchado, quente e dolorido.
- Mastite subclínica não dá sinal nenhum. O leite parece normal, e a infecção só aparece no CMT ou na contagem de células somáticas (CCS). Pela Embrapa, a vaca com CCS acima de 200 mil células/mL é considerada com mastite subclínica.
A subclínica é a regra, não a exceção. Num banco de dados de 1.809 rebanhos brasileiros analisados pela Clínica do Leite da Esalq, a prevalência média foi de 46,4% das vacas30582-9/fulltext) (Busanello e colegas, 2017).
A clínica, quando aparece, costuma ser leve. Em 20 rebanhos do Sudeste, 60% dos casos foram leves, 34% moderados e 6% graves (Tomazi e colegas, 2018). Essa proporção muda a decisão de tratar, como se vê mais abaixo.
Quanto custa
O prejuízo quase nunca está onde o produtor olha. O remédio é a parte pequena da conta.
- Custo de um caso clínico no Brasil. A Embrapa Gado de Leite acompanhou um rebanho holandês de Minas Gerais por 26 meses e chegou a R$ 229 por caso, em valores de 2002 a 2004. A divisão: exames, remédio e mão de obra, 37%; leite descartado, 29%; descarte e morte de vacas, 28%; veterinário, 6%. O valor está desatualizado, mas as proporções continuam úteis.
- Custo por vaca no ano. Uma simulação da Universidade Federal de Lavras (Lopes e colegas, 2012) chegou a R$ 728 a R$ 2.774 por vaca em lactação por ano, conforme a frequência de mastite clínica, de 1% a 15%. Com pouca clínica, o maior item é a queda de produção. Com muita, o leite descartado passa na frente.
- Na margem. A CNA e o Cepea calcularam, para uma fazenda típica de Uberlândia com 22 vacas e 400 litros por dia, que a mastite clínica e a subclínica juntas comem de 55% a 98% da margem bruta do ano.
Um estudo americano mais recente mostra o mesmo padrão. Um caso clínico no começo da lactação custou US$ 444, e 71% disso foi custo indireto: vaca descartada antes da hora e leite que ela deixou de produzir (Rollin e colegas, 2015, Estados Unidos).
De onde vem a bactéria
Mais de 140 espécies causam mastite, mas elas se dividem em dois grupos, e a prevenção muda conforme o grupo:
| Contagiosas | Ambientais | |
|---|---|---|
| Exemplos | Staphylococcus aureus, Streptococcus agalactiae | E. coli, Klebsiella, Streptococcus uberis |
| Onde vivem | No úbere infectado | Na cama, no esterco, no barro |
| Como passam | De vaca para vaca, na ordenha: mão, teteira, pano | Entram pelo teto entre uma ordenha e outra |
| Tipo de mastite | Subclínica longa, CCS alta | Clínica curta |
| O que funciona | Pós-dipping, linha de ordenha, tratar na secagem, descartar crônica | Cama seca e limpa, pré-dipping, vacina |
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No Brasil, os dois grupos convivem. Nos 20 rebanhos do Sudeste, as bactérias mais achadas nos casos clínicos foram E. coli, Strep. uberis e Strep. agalactiae, nessa ordem. As ambientais foram as mais comuns, mas os autores alertam que as contagiosas continuam sendo um problema nos rebanhos brasileiros.
Tratar: nem todo caso precisa de antibiótico
Essa é a mudança de maior impacto dos últimos anos, e começa com um dado incômodo: em 20% a 40% dos casos clínicos, a cultura do leite não acha bactéria nenhuma. Quando não cresce nada, a vaca geralmente já está curando sozinha, e o antibiótico só adiciona dias de leite no lixo.
Daí a cultura na fazenda, feita com placa pronta, que dá resposta em cerca de 24 horas:
- Caso grave (vaca abatida, com febre, sem comer): trata na hora, sem esperar a cultura.
- Caso leve ou moderado: colhe a amostra do quarto antes de qualquer remédio e decide no dia seguinte, com o veterinário. Em geral, cultura negativa ou Gram-negativa em caso leve dispensa o antibiótico no úbere; Gram-positiva se trata.
O efeito foi medido. Num ensaio em 8 fazendas dos Estados Unidos e do Canadá, a cultura cortou pela metade o uso de antibiótico no úbere, sem piorar a cura, a volta da mastite, a produção ou o descarte das vacas (Lago e colegas, 2011). Em duas fazendas de Goiás, os tratamentos caíram 34% e 52%.
E a bactéria decide quanto o tratamento funciona. Na lactação, segundo a Universidade da Geórgia, a cura com antibiótico é de 90 a 95% para Strep. agalactiae, mas só de 20 a 30% para Staph. aureus e de 0 a 10% para coliformes.
Toda vez que houver antibiótico, o leite fica fora do tanque pelo prazo da bula, ou pelo que o veterinário definir no uso fora da bula. É proibido mandar para o laticínio leite de vaca em carência (IN 77/2018, art. 5º). Como contar esses dias está no artigo sobre carência do leite.
Prevenir: o que tem efeito medido
A base é o plano do National Mastitis Council, entidade americana de referência em mastite. As medidas abaixo são as que têm número publicado:
- Pós-dipping em todos os tetos, logo depois de cada ordenha. Corta 70% ou mais das infecções novas, principalmente das contagiosas. Protege pouco contra coliforme, porque o efeito do produto acaba antes de a vaca deitar na cama suja.
- Linha de ordenha. Ordenhar por último as vacas com mastite ou CCS alta. Em pequenas fazendas do Sudeste, isso veio junto com risco bem menor de mastite clínica e subclínica no rebanho (Silva e colegas, 2021).
- Ordenhadeira revisada. Vácuo, pulsação e teteiras mal regulados respondem por 6% a 20% das infecções novas.
- Secagem bem feita. O tratamento de vaca seca cura de 70 a 80% das infecções por Staph. aureus, bem mais que na lactação. O selante interno de teto reduz em 25% o risco de infecção nova depois do parto, com ou sem antibiótico (Rabiee e Lean, 2013, meta-análise). Veja também período seco.
- Vacina contra coliformes (J5). Num ensaio na Califórnia, as vacinadas tiveram 80% menos mastite clínica por coliformes nos primeiros 100 dias de lactação. Compensa quando os coliformes já são um problema no rebanho.
- Cama seca e limpa, para as ambientais. É consenso, mas não achei número de efeito publicado.
- Descarte da crônica, principalmente a vaca velha com Staph. aureus que não cura e continua infectando as outras.
Mastite também atrasa a prenhez
Num estudo americano (Santos e colegas, 2004), as vacas com mastite clínica entre a inseminação e o diagnóstico de gestação tiveram 10% de concepção, contra 29% das vacas sem mastite. Elas também ficaram quase 50 dias a mais vazias. Na conta dos dias em aberto, a mastite aparece como vaca que não emprenha.
Qual é a meta
- Mastite clínica: menos de 1% das vacas em lactação por mês (Santos e Fonseca, 2007).
- Subclínica: a CCS do tanque é o termômetro. Abaixo de 200 mil, o rebanho está bem controlado; o limite da lei é 500 mil.
No rebanho da Embrapa, com cerca de 230 vacas em lactação, a média foi de 17 casos clínicos por mês. Em só 2 dos 26 meses a mastite clínica passou de 1% das vacas. A meta é possível.
O que anotar
- Cada caso clínico: vaca, quarto, data, gravidade e resultado da cultura, se fez
- O remédio, a dose e o fim da carência
- Se o caso voltou no mesmo quarto, e quando
- A CCS e a CBT do tanque de cada mês
Com isso, depois de alguns meses, dá para ver se o problema é de vaca para vaca (as mesmas vacas voltando, CCS alta) ou do ambiente (casos novos e agudos, vacas diferentes a cada vez). E cada um tem uma solução diferente.
Este texto é informativo e não substitui a orientação do médico veterinário responsável pela sua propriedade. Tratamento, escolha de antibiótico e carência são prescrição veterinária.