Carência do leite: quantos dias descartar depois de cada medicamento
A resposta curta: depende do produto, e o único lugar onde essa resposta existe é a bula do que você aplicou. Não há tabela oficial do governo com a carência de cada princípio ativo. A carência é definida pelo fabricante, registrada no produto, e muda entre marcas, entre concentrações e até entre apresentações do mesmo remédio. Cefquinoma injetável não pede descarte nenhum; cefquinoma na bisnaga intramamária pede 60 horas. Mesmo ativo, mesma vaca, resposta diferente.
Os casos mais buscados, de cabeça: ivermectina, doramectina, abamectina e moxidectina são proibidas em vaca em lactação — não têm carência, têm proibição. Levamisol: 24 a 48 horas. Oxitetraciclina de longa ação: 120 horas. Amoxicilina: 96 horas. Flunixina na veia: 36 horas. Cefalexina benzatina de vaca seca: 28 dias após a aplicação. Confira sempre a bula do frasco que está na sua farmácia.
A resposta longa é o resto deste texto, porque a bula sozinha não protege ninguém. Ela erra por omissão, erra por otimismo, e existe um punhado de situações de curral em que o produtor cumpre a carência escrita e mesmo assim entrega leite com resíduo.
O que está em jogo quando o teste dá positivo
A norma que vale hoje é a Instrução Normativa 77 do MAPA, de 2018, atualizada pela IN 59/2019. Se você viu material citando a IN 51, esqueça: ela foi revogada, junto com a IN 62, e as regras novas valem desde maio de 2019.
O artigo 5º, inciso V, é direto: é proibido enviar à indústria o leite de vaca que esteja "sendo submetida a tratamento com produtos de uso veterinário durante o período de carência recomendado". Não é recomendação. É proibição.
O que quase ninguém sabe é como o laticínio descobre. Pelo artigo 33, a indústria é obrigada a testar no mínimo dois grupos de antimicrobianos a cada recebimento. E pelo artigo 31, o teste é feito no compartimento do caminhão — não no seu tanque.
É aí que a conta fica cara. Em 2015, no Rio Grande do Sul, um produtor de Campos Borges teve que cobrir o descarte de 3.480 litros depois de um resultado positivo. Do total, cerca de 250 litros eram dele. O resto era leite dos vizinhos que subiram no mesmo caminhão.
A norma não diz quem paga: o artigo 51 manda destinar o leite conforme o programa de autocontrole do laticínio. Ou seja, quem decide o tamanho do seu prejuízo é o contrato que você assinou, não o MAPA.
Quantos dias de carência tem cada medicamento?
Os números abaixo saíram das bulas dos fabricantes. Confira sempre a embalagem do produto que está na sua farmácia, porque a mesma molécula muda de carência conforme a marca.
Vermífugos e carrapaticidas
| Produto | Ativo | Leite | Carne |
|---|---|---|---|
| Ivomec Injetável | Ivermectina 1% | Proibido em lactação | 35 dias |
| Dectomax | Doramectina 1% | Proibido em lactação | 35 dias |
| Solution 3,5% | Ivermectina + Abamectina LA | Proibido em lactação | 92 dias |
| Abamectina 1% Bayer | Abamectina 1% | Proibido em lactação | 35 dias |
| Cydectin | Moxidectina 1% | Proibido em lactação | 28 dias |
| Valbazen 10 Cobalto | Albendazol 10% | Proibido em lactação | 14 dias |
| Ripercol L Injetável | Levamisol 7,5% | 24 horas | 4 dias |
| Ripercol L 150F | Levamisol 18,8% | 48 horas | 7 dias |
| Galgosantel Oral | Closantel 7,5% | 15 dias | 30 dias |
Repare na primeira coluna de resultados. Ivermectina, doramectina, abamectina, moxidectina e albendazol não têm carência de leite. Têm proibição de uso. A diferença não é conversa de bula: quando não existe carência estabelecida, não existe número de dias que regularize a aplicação. Aplicou em vaca em lactação, o uso já saiu da bula, e a responsabilidade passa a ser inteira de quem prescreveu.
O Ivomec vai além e proíbe a aplicação também nos 35 dias antes do parto — o que pega vaca seca em pré-parto, quando muita gente aproveita para vermifugar.
Os dois levamisóis da mesma linha, com carências diferentes (24 e 48 horas), mostram por que ler a bula do frasco importa mais que decorar o ativo.
Antibióticos
| Produto | Ativo | Leite | Carne |
|---|---|---|---|
| Spectramast LC (intramamário) | Ceftiofur | 72 h após a última aplicação | 2 dias |
| Cobactan VL (intramamário) | Cefquinoma | 60 h ou 5 ordenhas | 48 h |
| Cef-50 / Ceftiomax | Ceftiofur injetável | Sem carência | 2 dias / zero ⚠️ |
| Cobactan injetável | Cefquinoma | Sem carência | 4 dias |
| Excenel RTU | Ceftiofur | Sem carência | Sem carência |
| Borgal | Sulfadoxina + Trimetoprima | 48 horas | 4 dias |
| Trissulfin | Sulfametoxazol + Trimetoprim | 36 horas ⚠️ | 14 dias ⚠️ |
| Enro Flec 10% | Enrofloxacina | 3 dias | 7 dias |
| Clamoxyl | Amoxicilina | 96 horas | 25 dias |
| Terramicina LA | Oxitetraciclina 20% | 120 horas (5 dias) | 28 dias |
| Gentrin | Gentamicina | Proibido em lactação | 30 dias |
| Pentabiótico | Penicilinas + estreptomicina | 5 dias | 30 dias |
| Ubersec (vaca seca) | Cefalexina benzatina | 28 dias após a aplicação | — |
Dois avisos sobre essa tabela. O ⚠️ marca produtos em que encontrei duas informações diferentes do mesmo fabricante — bula e catálogo comercial divergindo no número. Onde isso aconteceu, adotei sempre o prazo mais longo, que é o que protege o tanque.
E atenção ao Pentabiótico: existem apresentações cuja bula proíbe o uso em vaca em lactação. Os 5 dias valem para a apresentação liberada. Leia a embalagem que está na sua farmácia antes de aplicar.
Anti-inflamatórios
| Produto | Ativo | Leite | Carne |
|---|---|---|---|
| Banamine | Flunixina meglumina | 36 horas (uso intravenoso) | 4 dias |
| Meflosyl | Flunixina meglumina | Proibido em lactação ⚠️ | 7 dias |
| Ketofen 10% | Cetoprofeno | Sem carência | Sem carência |
| Maxicam 2% | Meloxicam | 72 horas | 8 dias |
| D-500 | Dipirona | 72 horas | 6 dias |
Os cinco erros que condenam o tanque
1. Errar a contagem dos dias. Aqui moram dois enganos diferentes, e os dois custam caro.
O primeiro: achar que o leite só sai do tanque depois que o tratamento acaba. Não. O descarte começa na primeira aplicação e não para até o fim da carência. Vaca que tomou a primeira dose hoje de manhã já não manda leite pro tanque hoje à noite.
O segundo: contar o dia da aplicação como dia 1. O dia da aplicação é dia zero. A contagem começa no dia seguinte. Aplicou na segunda-feira um produto de 3 dias de carência: terça é dia 1, quarta é dia 2, quinta é dia 3. O leite volta ao tanque na sexta, não na quinta. Um dia de diferença é o que separa a carga aprovada da carga condenada.
E quando o tratamento tem mais de uma dose, o prazo da bula corre a partir da última. Num tratamento de mastite com Spectramast LC a posologia permite até 8 dias seguidos de aplicação; as 72 horas começam a contar depois da oitava. O leite fica fora do tanque 11 dias, não 3.
2. Descartar só o leite do quarto tratado. O antibiótico cai na circulação e sai pelos quatro tetos. Não existe descarte parcial de vaca.
3. Mudar a via de aplicação. A flunixina tem 36 horas de carência de leite quando aplicada na veia, que é a via da bula. Aplicada no músculo, um levantamento americano mostra que o descarte sobe para 72 horas e a carência de carne salta de 4 para 30 dias. Mesmo remédio, mesma dose, o dobro de tempo. O músculo absorve devagar e segura o resíduo.
4. Ordenhar a tratada junto com as sadias. A teteira e a linha ficam com resíduo. A vaca em tratamento é ordenhada por último, e o equipamento é lavado depois. Fita colorida no pescoço, caneleira, o que funcionar na sua ordenha — mas alguma marca visível que sobreviva ao turno da noite e ao funcionário que faltou.
5. Confiar em bula que não diz nada. Este é o mais silencioso. Um levantamento da Embrapa Gado de Leite de 2015 analisou 181 antimicrobianos com indicação para mastite bovina no mercado brasileiro. Só 61,7% traziam o período de carência escrito. Entre os de aplicação sistêmica para vaca seca, o número foi zero. Nenhum informava.
Bula calada não é carência zero. "Sem carência" é uma afirmação que o fabricante assume; silêncio é lacuna. Quando a bula não diz, a orientação da própria Embrapa é ligar para o laboratório e pedir por escrito.
E quando a bula não basta?
Em 2022 a Embrapa publicou um experimento com três vacas Jersey em lactação. Testaram três tratamentos e mediram o resíduo com os mesmos kits que o laticínio usa. Dois deram negativo dentro da carência da bula. O terceiro — uma associação de penicilinas com estreptomicina — continuou dando positivo até o 13º dia, com bula que indicava carência máxima de 5 dias.
São três vacas. É um piloto, e os próprios autores dizem que serve para justificar um estudo maior. Não dá para transformar isso em regra. Mas dá para tirar uma conclusão prática: em produto de carência longa, e principalmente nas associações, a margem de segurança de um ou dois dias além do escrito custa pouco perto de uma carga condenada.
A vaca pariu antes do fim da carência: e o leite?
O manejo completo da secagem — quantos dias, quais vacas recebem antibiótico e o que acompanhar — está em período seco: quando secar a vaca.
Essa combinação merece atenção separada, porque junta duas coisas ruins.
A bula do Ubersec, cefalexina para vaca seca, pede 28 dias de carência após a aplicação e acrescenta: se o parto acontecer antes dos 28 dias, descarte por mais 14 dias. É a única bula que encontrei com essa instrução explícita.
Agora junte com o dado da Embrapa: nenhum antimicrobiano sistêmico para período seco informa carência. Você tem uma vaca tratada na secagem, que pariu adiantada, com um produto cuja bula não diz quanto tempo esperar. É a situação de maior risco silencioso de uma fazenda de leite, e ninguém percebe porque a vaca parece saudável e o leite parece normal.
Vale lembrar que o leite do último mês de gestação e da fase colostral já é proibido de ir para a indústria pelo mesmo artigo 5º, independente de qualquer tratamento.
O leite de descarte pode ir para o bezerro?
Não existe norma brasileira que proíba. A proibição é destinar ao consumo humano.
O que a literatura mostra é menos tranquilizador do que parece. A resistência antimicrobiana aparece com mais facilidade em bezerro do que em vaca adulta, e um estudo inglês registrou que os bezerros recusaram o leite com resíduo por causa do gosto, ganharam menos peso e apresentaram bactérias intestinais mais resistentes à estreptomicina. Outros trabalhos não acharam prejuízo. A literatura não é unânime, e quem disser que é está simplificando.
Se você vai usar, as precauções que aparecem na literatura são pasteurizar (72 °C por 15 a 20 segundos, ou 65 °C por 30 minutos) e não dar para bezerro recém-nascido nos primeiros dias, quando o intestino ainda absorve quase tudo que passa por ele.
O que fazer amanhã de manhã
Anote a data e a hora de cada aplicação. O leite sai do tanque já na primeira; a contagem da carência corre depois da última, e o dia da aplicação é dia zero. Anote em algum lugar que sobreviva à chuva e à troca de turno. Marque a vaca de um jeito que o funcionário novo entenda sem perguntar. Ordenhe as tratadas por último. E quando a bula não trouxer a carência, não invente: ligue para o laboratório.
O prejuízo de uma carga condenada não é o leite descartado. É a bonificação que some, a coleta suspensa, e o contrato que fica marcado.
Sou médico veterinário, trabalho com fazenda de leite há 17 anos. Este texto reúne o que está nas bulas e nas normas, e não substitui a orientação do veterinário responsável pela sua fazenda — que é quem conhece o rebanho e assume a prescrição.