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Período seco: quando secar a vaca, como secar e o que olhar nos 60 dias seguintes

Tiago Frias Pinheiro — médico veterinário ·

A resposta curta: 60 dias, contados para trás a partir da data prevista do parto. Não se conta a partir dos dias em lactação, nem do dia em que a vaca "baixou o leite". Conta-se do parto para trás.

O que quase nenhum material técnico admite é que essa conta só existe se você souber quando a vaca foi coberta e tiver confirmado a gestação. Sem data de cobertura anotada e sem diagnóstico, "secar 60 dias antes do parto" é uma instrução que não dá para executar. Vira chute. E é aí que começa metade dos problemas deste artigo.

O que acontece dentro do úbere quando a vaca seca?

O período seco não é férias. É uma obra. As células que produzem leite morrem ao longo da lactação mais rápido do que são repostas, e o intervalo entre uma lactação e outra é a janela em que o tecido é desmontado e reconstruído.

Essa obra tem três fases, e elas têm risco muito diferente:

FaseQuandoO que aconteceRisco de infecção
Involução ativa~21 dias após a última ordenhaO úbere ainda retém leite, o tecido está em degradação, o canal do teto continua abertoAlto
Involução estávelO miolo do período secoRolha de queratina formada, defesa natural no augeBaixo
Colostrogênese15 a 20 dias antes do partoFormação do colostro, pressão sobe, o canal do teto encurta e dilataAlto

Ou seja: o perigo está nas pontas. Nas duas primeiras semanas depois da secagem e nas duas ou três últimas antes do parto. No meio, a vaca se defende sozinha.

Os números do primeiro pico, compilados pela Ceva no MilkPoint, mostram o tamanho da diferença: 8,5% das novas infecções aparecem na primeira semana após a secagem, 3,3% na segunda, e praticamente nada da terceira em diante.

A rolha de queratina é a tampa natural que o canal do teto forma sozinho. Enquanto ela não fecha, o teto é uma porta aberta. Dingwell e colaboradores (2003) acompanharam esse fechamento e acharam algo que muda o manejo: mais da metade dos quartos fecha na primeira semana, mas 23,4% ainda estavam abertos na sexta semana. Quase um em cada quatro tetos segue sem tampa um mês e meio depois da secagem. E o fator que mais atrasa o fechamento é a produção de leite no dia da secagem: vacas acima de 21 kg tiveram 47% dos tetos ainda abertos na sexta semana, contra 19% nas de menos de 21 kg.

Por que 60 dias de período seco?

Vale saber que os 60 dias não saíram de um experimento de otimização. O padrão foi consolidado durante a Segunda Guerra Mundial, num contexto de maximizar produção, e a fisiologia mamária que hoje o justifica só foi descrita nos anos 50 e 60. Primeiro veio o número, depois veio a explicação.

Isso não torna o número errado. Torna ele discutível, e a pesquisa recente discute. O que a literatura mostra sobre encurtar:

ComparaçãoEfeito na lactação seguinteFonte
0 dias vs. 60 dias−5,9 kg/diavan Knegsel et al. (2013)
25 dias vs. 58 dias−4,8 kg/dia nas 14 primeiras semanasKok et al. (2020)
28 a 35 dias vs. 60 dias−1,4 kg/diavan Knegsel et al. (2013)
Menos de 45 dias vs. 65 dias ou mais−3,8 kg/diacitado por Marcos Veiga dos Santos, MilkPoint
Menos de 40 dias (revisão de 5 estudos)3 dos 5 estudos não acharam perda nenhuma; 2 acharam de 7 a 10%Bachman e Schairer (2003)
Mais de 90 diasPerda ao longo da vida produtiva, além de vaca gorda ao parto e distúrbio metabólicoKuhn et al. (2006); Weber et al. (2015)

A tabela parece clara, mas tem uma armadilha embutida: é tudo Holandesa de alta produção, em clima temperado, na Europa e nos Estados Unidos. O único trabalho que encontrei com vacas mestiças em condição brasileira é a dissertação de Ramos (UFU, 2026), que comparou quatro faixas de duração e não detectou efeito nenhum, nem produtivo nem reprodutivo. A amostra era de 70 animais, o que é pouco para enxergar diferença de poucos quilos por dia. Não conclui nada sozinha. Mas é honesto dizer que a tabela acima não foi validada para uma mestiça de 15 litros no pasto.

Na prática, a faixa que as fontes brasileiras defendem é a mesma: mínimo de 40, alvo de 60, teto de 70 dias. E existe uma exceção com bastante apoio: novilha de primeiro parto merece os 60 dias completos, sem encurtar. Ela ainda está crescendo, e precisa construir tecido mamário novo, não só repor o que gastou. Reduzir de 8 para 6 semanas prejudicou primíparas em vários trabalhos e não mexeu nas multíparas.

Os três critérios para decidir a data

1. A data prevista do parto

É o critério que manda. Sessenta dias para trás, o que dá por volta do sétimo mês de gestação.

Errar a data custa nos dois sentidos. Secar tarde demais e a vaca pare com período seco curto, sem involução completa e com colostro pior. Secar cedo demais e ela chega gorda ao parto, com todo o pacote metabólico que vem junto.

2. Quanto ela ainda está produzindo

Aqui está o conflito real de todo curral: a vaca ainda dá 20 litros e ninguém quer jogar leite fora.

O problema é que produção alta na secagem não é só leite que você deixa de tirar. Krömker e colaboradores (2024) acompanharam 798 quartos e encontraram a cadeia inteira: quanto mais leite no dia da secagem, mais pressão no úbere, mais vazamento — e quarto que vaza tem 3,4 vezes mais chance de nova infecção (5,8 vezes nos quartos de trás). As vacas que vazaram estavam produzindo 28,3 kg, contra 23,4 kg das que não vazaram. Curiosamente, a pressão do úbere sozinha não foi o fator de risco. O vazamento foi.

A ferramenta para resolver isso é gratuita: tire o concentrado. A queda de produção aparece de 3 a 5 dias depois da retirada. É esse o intervalo que você tem para programar a secagem de uma vaca que ainda está produzindo bem.

3. O escore de condição corporal

O alvo depende da raça, e essa parte quase nunca aparece nos materiais traduzidos:

GrupoECC alvo na secagem (escala 1 a 5)
Holandesa3,25 a 3,5
Girolando e Gir3,75 a 4,0

A regra prática é dura mas verdadeira: a vaca precisa chegar à secagem já no escore certo. O período seco é curto demais e a dieta é pobre demais para consertar escore com segurança. Se ela está magra na secagem, o erro aconteceu lá atrás, na lactação.

Sobre engordar ou emagrecer no período seco existe uma divergência que vale conhecer. O senso comum diz que vaca não pode ganhar peso no seco. Mas Chebel e colaboradores (2018), analisando 16.104 lactações — a maior amostra que encontrei sobre o assunto —, viram que as vacas que ganharam escore no período seco produziram mais leite, tiveram menos doença uterina e melhores resultados reprodutivos do que as que perderam. As que perderam 0,75 ponto ou mais foram as piores de todas. A leitura que concilia as duas coisas: o problema é chegar gorda à secagem, não subir um pouco partindo de 3,0.

Como secar a vaca: abrupta ou gradual?

Parar de ordenhar de uma vez é o método que a Embrapa recomenda e o que a maioria das fazendas usa. A lógica é mudar todos os estímulos de produção no mesmo dia: tirar o concentrado, mudar a vaca de piquete, parar a ordenha.

Existe gente defendendo a secagem gradual, reduzindo para uma ordenha por dia antes de parar. O estudo mais robusto sobre isso — Gott e colaboradores, com 428 vacas em 8 rebanhos de Ohio — deu empate: 22% de infecção pós-parto na gradual contra 23% na abrupta. Se um método fosse claramente superior, uma amostra desse tamanho teria mostrado.

Então a escolha é sua, e a abrupta ganha por ser mais simples de executar sem erro. Mas abrupta não significa secar e largar a vaca pra lá. É exatamente o oposto: como você concentrou todo o estresse num dia só, o acompanhamento nas duas semanas seguintes é obrigatório.

O que fazer no dia

  1. Verifique mastite em todos os quartos antes de qualquer coisa. Vaca com mastite clínica não entra em protocolo de secagem, entra em tratamento.
  2. Esgote os quatro quartos completamente na última ordenha.
  3. Pré-dipping, respeitando o tempo de contato. Seque com papel-toalha, um por teto.
  4. Desinfete a ponta de cada teto com álcool 70%, usando um algodão diferente para cada um.
  5. Aplique o produto intramamário, uma seringa por quarto, com a cânula inserida só parcialmente.
  6. Massageie o teto e a glândula para cima, para o produto subir.
  7. Se for usar selante, aplique logo depois do antibiótico e não massageie. O selante tem que ficar parado no canal.
  8. Pós-dipping em todos os tetos.
  9. Mude a vaca para um piquete longe da sala de ordenha. Tire o concentrado.
  10. Não ordenhe mais, mesmo com o úbere cheio.

O item 5 é o mais violado do curral. Enfiar a cânula inteira empurra bactéria da pele do teto para dentro da glândula e machuca o canal, que é justamente o que se está tentando proteger. A maioria das bulas não explica isso.

O item 10 também não é opcional. Voltar a ordenhar para "aliviar" retira o antibiótico e o selante que você acabou de infundir, reabre o canal, atrasa a rolha e zera a contagem da carência.

Toda vaca precisa de antibiótico na secagem?

Durante décadas a recomendação foi tratar todas. Hoje dá para tratar só as que precisam — com condições.

A melhor evidência é a meta-análise de Kabera e colaboradores (2021), que juntou 12 ensaios controlados. A terapia seletiva reduziu o uso de antimicrobiano em 66% sem diferença em novas infecções, prevalência ao parto, mastite clínica, CCS ou produção. Mas os autores escreveram a conclusão com uma condição que não pode ser cortada:

a seletiva funciona se, e somente se, o selante interno for usado nos quartos saudáveis não tratados.

Sem selante, o risco de nova infecção no período seco dobra (risco relativo 2,00). Fazer seletiva sem selante é pior do que qualquer uma das duas estratégias puras.

Quem pode não receber antibiótico:

Essas vacas recebem só o selante. Todas as outras recebem antibiótico e selante.

As condições do rebanho, que valem antes de qualquer decisão por vaca:

Se faltar qualquer uma dessas quatro, a evidência aponta para continuar tratando todas. Não é conservadorismo, é o que os dados sustentam.

Sobre o selante: é uma pasta inerte de subnitrato de bismuto, sem ação antibiótica. Ele imita a rolha de queratina e cobre justamente aqueles 23,4% de tetos que não fecham sozinhos. Não tem carência de leite nem de carne. Sai em grumos brancos ou acinzentados nas primeiras ordenhas depois do parto, o que assusta quem nunca viu e não é mastite.

Quantos dias de carência tem o produto de vaca seca?

Esta é diferente da carência dos produtos de lactação, e a confusão custa tanque condenado.

A carência do produto de vaca seca conta a partir da aplicação, não a partir do parto.

Se a dúvida for sobre produto de vaca em lactação — vermífugo, antibiótico de mastite, anti-inflamatório —, a tabela está no outro artigo: carência do leite, quantos dias descartar depois de cada medicamento.

ProdutoCarência do leitePeríodo seco mínimo
Orbenin Extra Dry Cow (cloxacilina benzatina)42 dias após a aplicação42 dias
Ubersec (cefalexina benzatina)28 dias após a aplicaçãoaplicar ~60 dias antes do parto
Ciprolac Vaca Seca (ciprofloxacina, intramamário)59 dias após a aplicaçãonão especificado
Mastijet Vaca Seca60 h / 5 ordenhas após o parto (fabricante)35 dias
Intrasec VS (cloxacilina benzatina)não informada na bulaaplicar até 30 dias antes do parto

Duas coisas nessa tabela merecem parar a leitura.

O Ciprolac intramamário de vaca seca tem 59 dias de carência de leite. Num período seco padrão de 60 dias, isso deixa um dia de margem. Um parto dez dias adiantado, que é banal, joga o leite para dentro da carência. É também uma fluoroquinolona, classe que a OMS considera criticamente importante para a medicina humana, o que pede parcimônia por outro motivo. Confira sempre a apresentação: o número é da bisnaga de vaca seca, e não vale para outras formulações da linha.

A bula do Intrasec VS simplesmente não informa a carência do leite. E isso não é azar meu na pesquisa. A Embrapa Gado de Leite mediu: na Circular Técnica 108, de 2015, de 181 antimicrobianos indicados para mastite bovina, só 61,7% traziam o período de carência escrito. Entre os intramamários de vaca seca, apenas 13,3%. Entre os sistêmicos para vaca seca, zero de 38.

O Intrasec traz ainda uma instrução que confunde quem está acostumado com os outros: ela manda aplicar no máximo 30 dias antes da data prevista do parto. Todas as outras bulas estabelecem um mínimo. Não é erro: o produto protege por volta de 30 dias, e a bula está limitando a antecipação para o antibiótico não estar vencido justo no fim da gestação.

A consequência prática precisa ficar clara. Num período seco de 60 dias, esse produto cobre a segunda metade e deixa a primeira descoberta — exatamente as duas semanas que concentram 8,5% e 3,3% das novas infecções. Quem usa Intrasec num período seco longo está protegendo o segundo pico e abrindo mão do primeiro. É uma escolha legítima se você souber que a está fazendo, e um problema se você achou que estava coberto o tempo todo.

Isso importa porque a IN 77/2018 do MAPA, no artigo 5º, inciso V, proíbe enviar à indústria o leite de vaca em carência "recomendada pelo fabricante". A lei remete a uma informação que, em boa parte dos casos, o fabricante não escreveu.

E se a vaca parir antes do prazo?

É por aqui que entra a maior parte do resíduo de antibiótico do leite de vaca seca.

Se a carência do produto é de 42 dias e a vaca pariu com 30 dias de seca, faltam 12 dias. O leite dela não vai para o tanque depois do colostro: vai 12 dias depois do parto.

A única bula que resolve isso de forma explícita é a do Ubersec, que manda descartar mais 14 dias a partir do parto se ele acontecer dentro da janela de carência. As outras são silenciosas, e aí a decisão volta para o veterinário responsável e para o teste de resíduo antes de reintegrar a vaca ao tanque.

As duas semanas de vigilância

Secagem abrupta bem feita termina no décimo quinto dia, não no dia da aplicação. O que olhar:

Nos primeiros 14 dias, todo dia: úbere vazando leite, quarto quente, inchado ou endurecido, vaca mancando ou apática. Vazamento é o sinal mais importante e o mais ignorado — é o marcador que multiplica o risco de infecção por três ou mais. Vaca que vaza precisa de teto limpo, cama seca e olho em cima.

Nas três semanas antes do parto, o risco volta a subir sozinho, porque o canal do teto reabre para a formação do colostro. É quando a vaca precisa estar em piquete limpo, com sombra e sem lotação. Estresse térmico no período seco não custa só na vaca: nos trabalhos da Flórida e da Geórgia, filha de vaca estressada nasceu com gestação 4 a 5 dias mais curta, absorveu menos imunoglobulina do colostro (1.058 contra 1.577 mg/dL) e produziu 5,1 kg/dia a menos na própria primeira lactação. São números de clima temperado com resfriamento artificial no grupo controle, e no Brasil boa parte das vacas secas não tem nem sombra — o que sugere efeito igual ou maior, sem número local que confirme.

Sombra em pastagem tropical: 5 m² por animal adulto. Cocho: 80 cm por vaca, ou 90 cm se novilhas e vacas estiverem no mesmo lote. Separar novilha de vaca resolve boa parte da competição por comida.

O que anotar de cada vaca

Nada do que está acima funciona de memória. O mínimo, por animal:

E uma marca física na vaca tratada — fita, colar, brinco colorido. Alguma coisa que quem ordenha reconheça sem consultar caderno, porque o funcionário que vai errar é o que entrou de folguista no domingo.

Se você registra a cobertura, a data da secagem sai sozinha. Se registra o produto aplicado, a data de liberação do leite sai sozinha também. É o tipo de conta que ninguém deveria estar fazendo de cabeça no meio do curral.


Este texto é informativo e não substitui a orientação do médico veterinário responsável pela sua propriedade. As carências citadas vieram das bulas dos fabricantes e podem mudar entre marcas e apresentações — confira sempre a embalagem do produto que está na sua farmácia.

Registre a cobertura e a secagem pelo WhatsApp: o Zap Agro devolve a data de secar, a data prevista do parto e o dia em que o leite volta ao tanque.

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