CCS alta no leite: o que significa, o limite da lei e como baixar
A resposta curta: CCS alta quer dizer mastite subclínica no rebanho. O limite da lei é 500 mil células por mL no tanque, mas bem antes disso a vaca já está produzindo menos leite. Para baixar, é preciso achar as vacas que puxam a média, não tratar o tanque.
O que é a CCS
As células somáticas são quase todas células de defesa, os leucócitos, que o sangue manda para o úbere quando há infecção. Uma parte pequena, de 0 a 7% num animal sadio, é descamação normal do próprio úbere (Embrapa).
Por isso a CCS é o termômetro da mastite subclínica, a que não dá grumo no leite nem úbere inchado:
- Vaca sadia: abaixo de 200 mil células/mL. A Embrapa lembra que vaca sem histórico de infecção costuma ficar abaixo de 50 mil.
- Acima de 200 mil, considera-se que a vaca tem mastite subclínica.
O limite da lei
A IN 76/2018, no artigo 7º, fixa a CCS do tanque em no máximo 500 mil células/mL, pela média geométrica dos últimos três meses, com pelo menos uma análise por mês.
Duas coisas que confundem:
- CCS alta não suspende a coleta. Pela IN 77/2018, a coleta só é cortada depois de três meses seguidos com a contagem bacteriana (CBT) fora do padrão. A CCS alta custa dinheiro todo mês, mas não para o caminhão.
- Estar abaixo de 500 mil não quer dizer estar bem. A média nacional já passou disso: 531 mil células/mL, o maior valor da série oficial desde 2013, divulgado pelo Ministério da Agricultura em 2024. Na União Europeia a média fica perto de 180 mil.
Quanto leite a CCS alta custa
Aqui está o prejuízo que ninguém vê no extrato. Um estudo clássico americano (Eberhart, 1982) relacionou a CCS do tanque com os quartos infectados e o leite perdido:
| CCS do tanque | Quartos infectados | Leite perdido |
|---|---|---|
| 200 mil | 6% | 0% |
| 500 mil | 16% | 6% |
| 1 milhão | 32% | 18% |
| 1,5 milhão | 48% | 29% |
Arraste a tabela para o lado para ver todas as colunas.
Ou seja: no limite da lei, o rebanho já perde 6% do leite. Com 1 milhão, quase um quinto. A calculadora de qualidade do leite usa essa tabela para mostrar quantos litros por dia a CCS tira do seu tanque.
No Brasil, a Clínica do Leite da Esalq mediu em vacas holandesas de alta produção que a perda começa com CCS bem baixa, perto de 14 mil células, e que a vaca adulta perde bem mais que a de primeira cria (Coldebella e colegas, 2003). Naquele rebanho, a CCS elevada custava em média 2,3 kg de leite por vaca por dia.
E ainda tem o bônus que o laticínio deixa de pagar. Isso está no artigo sobre pagamento por qualidade.
A CCS do tanque é uma média: quem puxa?
A CCS do tanque é uma média ponderada pelos litros. Cada vaca entra com a CCS dela vezes o que ela produz. Na prática, poucas vacas puxam a média do rebanho inteiro. Num relatório de fazenda, três vacas respondiam por quase 35% das células do tanque.
Para achar essas vacas existem dois caminhos:
CCS individual, todo mês. É a mais precisa. Com o resultado de cada vaca, calcula-se quanto cada uma contribui para o tanque: a CCS dela vezes os litros dela, dividido pela soma de todas. A Embrapa publicou uma planilha que faz essa conta.
CMT (California Mastitis Test), na ordenha. É mais barato, se faz no curral e testa cada quarto. Mistura-se o leite com o reagente na raquete: quanto mais viscoso, mais células. Num estudo da Embrapa com 3.012 quartos (Brito e colegas, 1997), os quartos com CMT negativo tinham em média 80 mil células; os mais fortes, acima de 4 milhões. O CMT acertou 93% dos quartos com mais de 500 mil. Serve como triagem, e não substitui a CCS individual.
Como baixar a CCS
Quase tudo se resume a duas frentes: parar de infectar vaca nova e resolver a vaca que já está infectada.
Parar a transmissão:
- Pós-dipping em todos os tetos, toda ordenha. O National Mastitis Council, entidade americana de referência em mastite, estima que ele corta 70% ou mais das infecções novas. Não cura a vaca que já está doente.
- Pré-dipping, que ajuda principalmente contra as bactérias do ambiente (cama, esterco).
- Linha de ordenha: primeiro as novilhas e as vacas sadias, por último as com CCS alta e as em tratamento. Assim a ordenhadeira não leva a bactéria de uma vaca para outra.
- Ordenhadeira regulada: vácuo, pulsação e teteiras. A máquina responde por 6% a 20% das infecções novas.
Resolver a vaca doente:
- Cultura antes de tratar. Saber qual bactéria está ali muda a decisão, porque a cura depende muito dela. Na lactação, o tratamento cura de 90 a 95% das infecções por Streptococcus agalactiae, mas só de 20 a 30% das por Staphylococcus aureus (Universidade da Geórgia).
- Tratar na secagem. A mesma vaca com Staph. aureus chega perto de 75% de cura quando tratada na secagem, contra 20 a 30% na lactação. Às vezes a melhor decisão é secar antes.
- Descartar a crônica. A vaca que passa de 200 mil mês após mês, com Staph. aureus, raramente cura e continua infectando as outras.
Tratar vaca por vaca com antibiótico sem saber o que tem geralmente só aumenta o leite descartado por carência. Mais sobre isso em mastite: clínica e subclínica e em carência do leite.
O que anotar
- A CCS e a CBT do laudo de cada mês, e o bônus ou desconto correspondente
- A CCS individual de cada vaca, se fizer controle leiteiro, ou o CMT por quarto
- Cada caso de mastite clínica: vaca, quarto, data, tratamento e se voltou
- As vacas que ficam acima de 200 mil por mais de dois meses seguidos
Com a lista das vacas que puxam a média, a conversa com o veterinário deixa de ser "a CCS subiu" e vira "estas quatro vacas, estes quartos, esta bactéria".
Este texto é informativo e não substitui a orientação do médico veterinário responsável pela sua propriedade. Tratamento e escolha de antibiótico são prescrição veterinária.