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CBT alta no leite: causas, limite da lei e como baixar

Tiago Frias Pinheiro — médico veterinário ·

A resposta curta: CBT alta quase sempre é equipamento mal lavado ou leite mal resfriado, raramente é a vaca. O limite da lei é 300 mil UFC/mL no tanque, e três meses seguidos acima disso param a coleta. A boa notícia é que a CBT responde rápido: acertada a limpeza, o resultado melhora no laudo seguinte.

O que é a CBT

A CBT (contagem bacteriana total) mede quantas bactérias há no leite do tanque. A lei chama de CPP, contagem padrão em placas, e o laudo pode trazer qualquer um dos dois nomes. O resultado vem em UFC/mL, unidades formadoras de colônia por mililitro.

É fácil confundir com a CCS, mas elas medem coisas diferentes:

Leite que sai de um úbere sadio tem menos de 1.000 bactérias por mL (Santos, MilkPoint). Todo o resto entra depois. Uma CBT abaixo de 20 mil UFC/mL é sinal de boa higiene.

O limite da lei e quando a coleta para

A IN 76/2018, artigo 7º, fixa no máximo 300 mil UFC/mL no tanque da fazenda, pela média geométrica dos últimos três meses.

A consequência está na IN 77/2018, artigo 45: com três meses seguidos de média fora do padrão, o laticínio tem que interromper a coleta. Para voltar, basta um resultado dentro do padrão, emitido por laboratório da rede oficial (RBQL).

Como a média é móvel, um mês ruim demora para sair da conta. O próprio Ministério da Agricultura dá dois exemplos no seu perguntas e respostas, com a CBT de cinco meses seguidos:

Resultados do mês (mil UFC/mL)Médias dos 3 mesesColeta
Fazenda A1.000, 800, 700, 350, 100824, 580, 290Mantida
Fazenda B800, 600, 600, 700, 800660, 631, 695Interrompida

Arraste a tabela para o lado para ver todas as colunas.

A fazenda A tinha começado muito pior e escapou, porque os dois últimos meses foram bons o bastante para puxar a média para baixo de 300. A fazenda B nunca teve um mês desastroso, mas nunca melhorou. A calculadora de qualidade do leite faz essa conta com os seus três últimos laudos e diz quanto o próximo pode dar.

Duas regras a mais:

As causas, da mais comum à menos comum

Não achei estudo brasileiro que dê o percentual de cada causa. Mas as fontes técnicas concordam na ordem: limpeza e resfriamento vêm bem antes da vaca.

1. Limpeza do equipamento

É a principal. O leite que fica grudado na ordenhadeira, nas mangueiras e no tanque vira comida para bactéria, e a água que sobra depois da lavagem carrega essas bactérias para o leite da ordenha seguinte.

Numa pesquisa da Universidade Estadual de Londrina (Santana e colegas), a água que sobrava nos tanques depois da lavagem tinha até 170 milhões de UFC/mL. Os pontos de maior contaminação eram latões, tanques, a água residual dos equipamentos e os tetos.

Os erros mais comuns: falta de água quente, que a Embrapa aponta como uma das grandes deficiências das fazendas, detergente na dose errada, lavagem curta ou longa demais, borracha rachada e a torneira de saída do tanque, que ninguém desmonta.

2. Resfriamento

A refrigeração não mata bactéria, só atrasa. Por isso o prazo importa. Pela IN 77, o tanque precisa baixar o leite para 4 °C em até 3 horas. A Embrapa acrescenta: quando o leite da segunda ordenha cai no tanque, a mistura não deve passar de 10 °C e precisa voltar a 4 °C em 2 horas (Embrapa).

Em temperatura favorável, os coliformes dobram a cada 20 a 30 minutos. Leite que passou uma hora morno já começa com a contagem multiplicada.

Pontos para conferir:

3. Tetos sujos

A cama pode ter de 100 milhões a 10 bilhões de bactérias por mL. Um grama de barro ou esterco que entra na teteira pode somar mais de 7 mil UFC/mL ao leite do tanque (Santos, MilkPoint). O pré-dipping, com o teto seco com papel toalha antes de colocar o conjunto, resolve essa parte.

4. Mastite

Pesa menos do que se imagina, mas pode pesar. Uma única vaca com mastite clínica por estreptococo pode ter mais de 10 milhões de bactérias por mL no leite. Num rebanho de 100 vacas, isso pode subir a CBT do tanque em cerca de 100 mil UFC/mL. É mais um motivo para o teste da caneca em toda ordenha, e para o leite da vaca com mastite não ir para o tanque.

5. Água

Água contaminada lava o equipamento e suja o que acabou de limpar. Água dura, com muito cálcio e magnésio, também atrapalha o detergente. Vale mandar a água da ordenha para análise pelo menos uma vez.

Lavagem da ordenhadeira: os números

Os valores abaixo são da Embrapa, para lavagem por circulação. Sempre siga também a dose do rótulo do detergente.

EtapaTemperaturaTempo
Enxágue inicial35 a 43 °CAté sair limpa
Detergente alcalino cloradoEntra a 70 °C, sai acima de 40 °CCerca de 10 min
Detergente ácido35 a 43 °C5 min
SanitizaçãoConforme o rótulo5 min antes da ordenha

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Três detalhes que derrubam a lavagem:

No tanque, desmonte e escove a torneira de saída e a pá do agitador.

Como achar a causa na sua fazenda

Quando a CBT sobe e a causa não é óbvia, o laboratório pode fazer testes que apontam a origem (Brito, Embrapa):

E antes de culpar o laboratório, confira a coleta da amostra. O leite precisa ser agitado por 5 minutos em tanques de menos de 5 mil litros e 10 minutos nos maiores, e a amostra nunca deve sair pela torneira de saída.

Como está o Brasil

A CBT média do leite inspecionado pelo serviço federal está bem abaixo do limite: foi de 66 mil UFC/mL em 2023 e 75 mil no começo de 2024, segundo dados do Ministério da Agricultura. A média, porém, esconde as fazendas com problema: num levantamento com 38 laticínios, 8 recebiam leite com CBT média muito acima de 300 mil.

O que anotar

Quando a CBT sobe de um mês para o outro, quase sempre alguma coisa mudou na lavagem. Com a rotina anotada, fica fácil achar o quê.


Este texto é informativo. Confira sempre o regulamento vigente e a tabela do seu laticínio, e siga as instruções do fabricante do detergente e do equipamento.

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